Coral de crianças refugiadas se apresenta no Rio em homenagem ao Dia das Mães

Coração Jolie, projeto da IKMR com apoio do ACNUR, reúne crianças de diferentes nacionalidades, que cantam sucessos da música brasileira colocando o refúgio em perspectiva

Nas tardes de domingo, quem visitava o Museu da Imigração, no tradicional bairro paulistano da Mooca, pode ouvir uma melodia infantil entoando pelo espaço. Primeiro, o som dos risos vindos do imenso gramado transformado em palco para brincadeiras. Nele correm crianças de países diferentes e idades distintas, todas unidas por um só projeto. A brincadeira em pouco tempo dá lugar ao talento no cantar.

Na sala de ensaios surge uma melodia diferente. Com idades de 03 a 12 anos, cem crianças integram o coral Coração Jolie, projeto da ONG IKMR – Eu Conheço Meus Direitos, com apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados e do Museu da Imigração de São Paulo. O coro é formado por vozes de diferentes nações. Crianças do Iêmen, Jordânia, Palestina, Síria, Sudão do Sul, República Democrática do Congo, Líbia, Nigéria e Angola. Uma parte do mundo reunida numa sala, com a missão de fazer a releitura de sucessos da música brasileira colocando o refúgio em perspectiva.

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Ensaio do coral Coração Jolie. No repertório, sucessos como Aquarela e Azul da Cor do Mar ganham novo significado (Foto: Géssica Brandino)

O coral Coração Jolie foi criado em março de 2015 e o resultado dos ensaios realizados semanalmente poderá ser visto no Rio de Janeiro, num jantar humanitário em homenagem ao dia das mães, que será realizado neste sábado (7/5). (Clique e confira o evento no Facebook). Essa será a terceira apresentação na capital fluminense. A estreita foi num ato pela paz no Dia Mundial do Refugiado, no Cristo Redentor, em junho do ano passado. Em novembro, celebrando o Dia Universal da Criança, o coral se apresentou novamente na cidade, no Theatro Net Rio.

A coordenadora do projeto e fundadora da IKMR, Viviane Reis, explica que o coral tem duas razões para existir. A primeira é preservar ou resgatar a identidade cultural das crianças que participam da iniciativa. “Em algum momento elas começam a negar a nacionalidade para serem aceitas, porque existe resistência das crianças brasileiras e muito bullying. A gente quer que elas sintam que são bem-vindas e que trazem muita riqueza. Queremos eu isso seja compartilhado e pelas música conseguimos isso.”

O outro objetivo do projeto é sensibilizar a sociedade. “As pessoas não entendem quem são essas crianças. Elas não olham para as crianças refugiadas e pensam nos próprios filhos, mas quando eles as veem assim [cantando], percebem que são crianças como as outras e que só estão aqui pedindo uma chance para serem ouvidas. Precisamos mostrar o potencial que elas têm, que estão aqui para acrescentar, que não são um fardo ou estão trazendo problemas.”

A apresentação que será vista no sábado é resultado do empenho de uma equipe formada por 15 pessoas. Aos domingos, ao meio-dia, cada criança é buscada nas estações do metrô e outros endereços da cidade. Cada uma é conhecida pelo nome e há todo o cuidado com a alimentação e também com a escolha das letras das músicas.

Azul da cor do mar fala sobre pessoas que cruzam oceanos. Aquarela e O Sol falam sobre fronteiras. Essas canções compõem um repertório de sete músicas, conhecidas do público, mas que certamente passarão a ser ouvidas de forma diferente. “As mães fazem toda a ligação e se emocionam muito. Há todo um trabalho para que as crianças possam sair daqui cantando. Elas sabem que esse é um projeto feito para elas. Nós estamos aqui por elas e sabemos o nome de cada uma e de onde vêm”, destaca Viviane.

O trabalho da IKMR

Criada há quatro anos, a IKMR atua especificamente com crianças. Há três anos, realiza ações mensais com crianças refugiadas e solicitantes de refúgio, com passeios para parques, cinemas e outros roteiros infantis, por meio de parcerias com os produtores de cada evento. “No nosso âmbito de atuação é tudo personalizado, porque nós entendemos que a primeira coisa que é negada quando você foge é a sua humanidade”, reforça Viviane.  Quando o tratamento é humanizado, o reflexo se torna visível, seja no sorriso de cada criança que participa do coral, no orgulho refletido no rosto das mães e pais que acompanham a atividade e na interação entre as crianças e os voluntários do projeto.

Por Géssica Brandino