Solicitantes de refúgio redescobrem o português em visita a museu

Por Géssica Brandino

Numa manhã ensolarada, um grupo de 12 pessoas que mesclavam olhares de expectativa chegava ao Museu da Língua Portuguesa. Mas não era um grupo ou uma visita comum. Vindos da Nigéria, República Democrática do Congo, Congo, Síria, Gâmbia, Togo, Colômbia e Nepal, eles estavam ali para redescobrir o idioma que começaram a aprender há um mês e meio, no curso de português oferecido a solicitantes de refúgio pelo Sesc Carmo, resultado do convênio entre Sesc/Senac, Cáritas e Acnur e que já formou cerca de 2 mil alunos.

Turma de alunos do curso de português do Sesc ao lado da professora Carmem Venturi (Foto: Géssica Brandino)

Turma de alunos do curso de português do Sesc ao lado da professora Carmem Venturi (Foto: Géssica Brandino)

Aprender o português é uma das primeiras necessidades para os que chegam ao país em busca de refúgio, após ter a vida ameaçada no país de origem por conflitos armados e por violações aos direitos humanos. No ano passado, o Brasil tinha 4.296 refugiados, além de 3.075 solicitações de refúgio a espera de um parecer final do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), órgão colegiado vinculado ao Ministério da Justiça.

O passeio ao museu foi idealizado pela professora Carmem Venturi, que viu na atividade uma oportunidade de mostrar aos alunos as semelhanças do português com a origem de cada um, facilitando o aprendizado num momento de descontração fora da sala de aula. “Pensei que aqui eles teriam uma visão melhor da Língua Portuguesa. Esse é o primeiro momento em que eles podem visitar um espaço diferente. Aqui, eles lidam com um outro aspecto não só da língua, mas da cidade de São Paulo. Eles sempre aprendem um pouco mais”.

Essa foi a sétima turma do curso a visitar o museu. O monitor que acompanhava o grupo explicava o quão viva era a língua portuguesa e que esse dinamismo seria encontrado ao longo do museu. Logo na primeira parada, eles perceberam que aquele não era um espaço convencional. Na mesa digital, o desafio era unir prefixos e sufixos formando palavras presentes no dia-a-dia. A descoberta era anotada no caderno por alguns e brilhava nos olhos de outros.

A grande surpresa seria o espaço que mostrava a história do português e suas múltiplas influências. Os olhos se fixaram no pedaço do mapa que indicava a vinda dos africanos ao Brasil. “Minha família está em Pernambuco”, “Meus ancestrais”, disseram ao ver a seta que saía do continente africano e chegava ao nordeste brasileiro. Nas mesas eletrônicas, os idiomas falados por eles estavam ali. O espanhol, francês, árabe, inglês e os dialetos africanos deram origem a tantas palavras do português que inicialmente pareceu tão difícil, mas que naquele instante encheu os olhos de alegria. Era um pedaço da própria identidade.

Na última parada, a tela que exibia um filme sobre a língua se transforma em porta surpreendendo a plateia. Do outro lado, eles viam as palavras projetadas no teto e ouviam as poesias sobre o Brasil, sobre o amor e sobre a existência, de poetas brasileiros e portugueses. Quando o ar é invadido pelo repente de Caju e Castanha, todos se levantam e os poemas das paredes agora podem ser lidos no chão. Ali, permanecem dançando, anotando palavras e tirando dúvidas. São os últimos a sair e saem apenas quando as luzes das poesias se apagam sob os pés.

“Muito bonito”, foi a definição de Joel, da República Democrática para o cenário. “O museu não é formal. É uma mistura de muitas coisas que ficam muito bonitas”, comenta. O colega de turma, Raphael, do Togo, também ficou encantado. “Não esperava ver tantas coisas da África”, conta.

A experiência de acompanhar um grupo de maioria africana foi inédita para o monitor Dyego Oliveira. “Achei muito interessante, porque isso faz parte da nossa raiz, da língua e da nossa cultura brasileira. Estar em contato direto com a população desses lugares que fizeram parte da nossa constituição e que são tão importantes no nosso processo de formação como povo é algo sem igual. É uma troca intensa, eu como educador apresentando o acervo e eles trazendo a vivência de fato daquelas línguas e daquelas culturas.”

“Você viu como eles ficam alegres?”, pergunta a professora Carmem, que também exibe um sorriso ao final da visita da turma, que termina o curso já na próxima semana, mas que guardará a lembrança daquele dia, assim como sua educadora. “Cada grupo é muito diferente do outro. São muitas nacionalidades, culturas e experiência de vida. Eu me sinto privilegiada, porque aprendo muito com eles.”

Acesse em: Solicitantes de refúgio redescobrem o português em visita a museu (Portal Aprendiz, 19/02/2014)