Identidade sem estereótipo: a trajetória de irmãs colombianas no Brasil

Refugiadas há 15 anos em São Paulo, as irmãs vivenciam a cultura local, sem esquecer a infância no país de origem. Para celebrar o mês da mulher, elas desejam uma sociedade livre do machismo e uma visão não estigmatizada sobre a Colômbia e refúgio

Por Géssica Brandino

As irmãs colombianas Daniela, 27, e Juanita Hernandez Solano, 24, são mulheres que cresceram entre culturas. Na casa de ambas, o espanhol é o idioma de todos os dias e as festas de final de ano são celebradas ao ritmo da terra natal, com muita música e dança. Em São Paulo elas encontraram um ambiente “open mind”, que contrasta com a cultura mais conservadora do país em que nasceram. Quando o assunto é direito da mulher, elas se colocam na luta pela equidade de gênero, com ressalvas a posturas extremas que excluem os homens do debate, pois acreditam que só com a participação deles será possível vencer o machismo.

Foi no município de Silvia, no departamento de Cauca, localizado na cordilheira oriental da Colômbia, que Daniela, Juanita e suas duas irmãs, Ana Maria e C’ayu Manuela,  viveram parte da infância. O ativismo em direitos humanos levou os pais ao povoado para atuar em projetos sociais junto à população indígena paece. Daniela lembra com saudades dos amigos, do contato com a natureza e do espírito comunitário que vivenciou naquele período. “Foi a melhor infância que poderia ter tido. Eu e minha irmã (Ana Maria) tínhamos um grande grupo de amigos mais velhos e politizados. Vivi a rebeldia da adolescência nessa fase, com várias lutas e ideais”.

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Da infância em Silvia: os pais desenvolviam trabalhos sociais com indígenas paeces. Aqui, a mãe é acompanhada por Ana Maria e Daniela (Fotos: acervo pessoal)

A disputa da região por grupos envolvidos no conflito colombiano mudaria o rumo da história da família, que passou a receber ameaças dos paramilitares para deixar o país. O primeiro aviso veio em 2001, porém a situação parecia ter se estabilizado seis meses depois, quando a mãe delas decidiu viajar para passar férias de final de ano em São Paulo, na casa da irmã, que é casada com um brasileiro. A reviravolta nos planos veio com novas ameaças dos paramilitares, que tornaram impossível voltar ou permanecer em Silvia.

Juanita tinha nove anos e recorda que haviam preparado um cartaz com fotos para dar boas vindas à mãe, mas a chegada era constantemente adiada. Como ainda eram crianças, as informações sobre o que acontecia eram escassas. Daniela recorda que foi apenas às vésperas da viagem de Juanita para o Brasil, em abril de 2002, que souberam que seria preciso mudar definitivamente para o país. Ao lado do pai, elas saíram de Silvia sem poder comunicar os amigos do povoado o que estava acontecendo e passaram a viver de cidade em cidade, aguardando a data da partida. Sem recursos para custear as passagens das quatro filhas, a família se mudou aos poucos, com o auxílio de parentes, amigos e até mesmo de uma rifa.

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Da esquerda para direita: as irmãs Ana Maria e Daniela ao lado da mãe e de Juanita, no povoado indígena de Silvia

Se para Juanita a chegada ao Brasil trouxe o alívio do reencontro com a mãe, em meio a vários chocolates da Páscoa e novas colegas da mesma idade, para Daniela a mudança foi difícil. Os tios viviam num condomínio fechado na região metropolitana de São Paulo, num ambiente completamente diferente daquele no qual crescera. Por intermédio da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, instituição que trabalha desde 1980 no acolhimento aos refugiados que chegam à cidade, as irmãs conseguiram bolsas de estudo em escolas particulares. Ali, apesar da acolhida dos professores, Daniela conviveu com o bullying de colegas que associavam a Colômbia ao tráfico de drogas. “Eu sabia e tinha muito dentro de mim que a Colômbia não era só drogas e as FARC, mas o que chegava aqui era isso. Lembro que gritavam ‘olha aí a guerrilheira!’, ‘você trouxe pó’?”.

Estigma

Nos primeiros anos no Brasil, as irmãs evitavam contar que eram refugiadas. “Eu tinha vergonha de dizer, porque as pessoas perguntavam do que estava fugindo e o quê havia feito de errado”, lembra Juanita. Narrar o que havia acontecido com a família também trouxe situações desconfortáveis para Daniela. “As pessoas diziam ‘nossa… que legal’, ‘que história’ e ter que deixar seu país de uma hora para outra não é uma tremenda história. Depois de um ano e meio no Brasil, entendi que era importante explicar a diferença de ser refugiada e porque eu vim. De explicar que existem várias frentes armadas que também matam na Colômbia e que o narcotráfico não está apenas nas mãos das FARC”.

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Da esquerda para a direita: Ana Maria, C’ayu Manuela no colo da mãe, a professora e amiga da família, Adriana Maria, Juanita e Daniela

Há 15 anos no Brasil, Daniela conta que foi somente após a queda do avião da Chapecoense no final do ano que viu a cobertura da imprensa falar algo positivo sobre os colombianos. “Sempre ouvi falar da Colômbia relacionada a drogas e FARC e agora foi a primeira vez que ouvi falar diferente desde que cheguei ao Brasil, com pessoas dizendo que somos um povo lindo. Só assim para nos enxergarem como gente”.

O amor pelo país e a saudade dos amigos de Silvia levaram Daniela de volta à terra natal no ano passado, quando passou seis meses revisitando os locais que marcaram a infância. “Foi maravilhoso. Fiz o percurso de ver todos os meus amigos e pude ver que eles realmente nos consideravam como uma família. Um deles me disse ‘vocês saíram, mas para nós ficou um vazio’. Alguns disseram que nós fomos a primeira família que a guerra tirou. Foi muito bonito”.

Identidade

O vínculo com a Colômbia foi cultivado dentro de casa por meio do espanhol. A língua era uma das formas de expressar o orgulho da identidade, que nunca quiseram perder. O espírito festivo e os pratos colombianos trazem boas lembranças, rememoradas especialmente nas festas em família. “Ser colombiano é ser bonito”, sintetiza Daniela, que vê como privilégio a oportunidade de crescer em meio ao espírito livre da capital paulista, mas com valores da terra natal, como o valor à família. A união entre as quatro irmãs é tão forte que três decidiram fazer uma tatuagem com os quatro elementos do zodíaco para expressar a complementariedade entre elas.

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Irmãs unidas: Ana Maria, Daniela, Juanita e C’ayu Manuela, cujo nome indígena significa alegria. No braço, carregam a tatuagem de complementariedade com os quatro elementos

Como mulheres, elas se unem ao coro que luta por direitos e contra discriminações, mas Daniela considera importante fazer ressalvas diante de posturas extremas de feministas que excluem os homens do debate sobre machismo na sociedade e que ao invés do diálogo adotam posturas hostis. “O movimento feminista foi muito importante quando nasceu, mas tenho medo desses de hoje, pelos episódios de hostilidade com pessoas que conheço. A luta tem que continuar porque vivemos num mundo machista onde tudo é pautado por isso, mas pra mim não existe feminismo sem um diálogo com os homens. Nada funciona de cima pra baixo e é preciso tentar dialogar sempre que possível. Há um movimento de raiva e justiça não é revanche”.

Para ambas, março é um mês que ensina a não naturalizar as desigualdades e que vem para pautar a luta das mulheres. Juanita recorda que desde a infância, a cada 8 de março, a mãe fazia questão de ler um texto sobre a história de luta dessa data e dar um pequeno presente para sempre lembrarem da importância de ser mulher. “Independentemente do lugar onde você estiver, ser mulher é ser guerreira”, destaca, no que Daniela complementa “Ser mulher é uma dadiva e esse é um dia para mostrar a força e a potência das mulheres. Se todas parassem, o mundo iria desandar”.

Compartilhando culturas

Para ajudar a romper estereótipos sobre refúgio e migração, Juanita, Daniela e a irmã mais nova, C’Ayu Manuela participaram dos encontros promovidos pelo projeto “Sarau dos Refugiados”, iniciativa promovida pelo Sesc São Paulo em que refugiados de diferentes nacionalidades apresentam sua arte, por meio do canto, poesia e dança. Nos encontros, uma das leituras que gostam de compartilhar é da letra da canção “No me llames extranjero”, de Alberto Cortez e Facundo Cabral, uma reflexão sobre a humanidade que une pessoas de todas as nacionalidades. (Leia mais: Cultura como ponte: sarau aproxima refugiados e brasileiros por meio da arte)

Daniela também faz parte da coordenação de outro projeto, o Visto Permanente, criado em 2015 para dar visibilidade às múltiplas formas de manifestação artística de imigrantes que vivem em São Paulo, por meio da produção audiovisual. A iniciativa já foi contemplada em editais do projeto Redes e Ruas, da prefeitura de São Paulo, e do ProAC – Publicação de Conteúdo Cultural, do governo do estado. Além da produção em vídeo, o projeto também tem promovido encontros, unindo congoleses, angolanos e latinos, entre outras nacionalidades, num movimento que valoriza aquilo que está no DNA da cidade.  “O Visto Permanente surgiu com a ideia de dar espaço e romper com a estigmatização do imigrante e refugiado. São Paulo é muito plural, mas apesar de ser uma cidade imigrante, ainda hoje há preconceito”, explica.  No que depender das irmãs Solano, a força da cultura será uma ponte para unir brasileiros e imigrantes, num mesmo sentimento de pertencimento.